Segunda-feira, 26 de Maio de 2008

Respeitável público




Esta será a primeira turnê da atriz Aurélia Thierré Chaplin no Brasil, com apresentações diversas no Brasil.
Num mundo sem pé nem cabeça, de improváveis encontros e personagens desconexos, as aparências enganam. Inúmeras peças de um quebra-cabeça visual são governadas pela estranha lógica de nossa imaginação, sem começo nem fim. Esta é a definição de "L’Oratorio d’Aurélia", inspirado na magia do "hall music" e do circo, unindo sonho e mistério teatral. A turnê percorre dez cidades brasileiras entre junho e agosto de 2008: Londrina, São Paulo, Santos, Brasília, Recife, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São José do Rio Preto, Fortaleza e Salvador.
"L’Oratorio d’Aurélia" foi concebido em 2004 por Victoria Thierrée Chaplin e Aurélia Thierrée, mãe e filha. Com este trabalho, elas mostram que não precisam recorrer ao sobrenome famoso, herdado do pai de Victoria, Charlie Chaplin, para conquistar o reconhecimento. Sobre isso, Aurélia afirma: "É realmente mágico ser neta de Charlie Chaplin, mas é também abstrato. Eu tinha quatro anos quando ele morreu. Não tenho muitas lembranças. É por respeito que meu irmão e eu não falamos dele: nossos espetáculos são muito diferentes do que ele fazia. Eu me sentiria mal se usasse seu nome para atrair as pessoas. Ser neta de Carlitos é um belo presente da vida. Eu me contento com isso".
A peça já foi aplaudida em vários países como um espetáculo sofisticado e sublime, que cria imagens de ilusão e resgata elementos mágicos de teatro e circo. No palco, uma jovem contracena com seres humanos e outros nem tanto, criando uma seqüência de acontecimentos que surpreende a expectativa do público. O cenário e a música contribuem com essa atmosfera envolvente. A extraordinária combinação de efeitos visuais, eufórica imaginação, refinadas marionetes, dança e magia circenses resultou num delicioso espetáculo.
Poético e delicado, "O Oratório de Aurélia" apresenta o mundo ao contrário, com objetos e personagens de vida própria. O rato come o gato, as flores na jarra estão de cabeça para baixo, a protagonista veste-se diretamente no gaveteiro, com mãos, braços, pernas e pés "desmontáveis". Forma-se um universo surreal em que a cena se revolta, e as cortinas de veludo vermelho mexem-se imprevisivelmente. Trata-se de uma apresentação irônica e divertida, que faz sonhar espectadores de todas as idades. A platéia retorna ao mundo perdido da fantasia, onde não há limites para a imaginação.

Sexta-feira, 16 de Maio de 2008

Oswaldiano de cabo a rabo



Uma festança vai marcar os 80 anos do Manifesto Antropofágico, escrito por Oswald de Andrade, e as comemorações dos 50 Anos da Companhia Teatro Oficina Uzyna Uzona, do Zé Celso Martinez Corrêa. Na Quinta (dia 22), das 12 às 18 horas, a trupe do Oficina ocupa o terceiro andar da Unidade Provisória Sesc Avenida Paulista, para um banquete em torno da idéia de criação de uma primeira Universidade Antropofágica, num exercício de deglutição de arte, saber e sabores. No menu principal, as mesmas rãs à vinagrete que inspiraram Oswald de Andrade em seu manifesto, ao lado de pratos da culinária africana, presentes no Candomblé.
Sob direção de Zé Celso, e a mediação do ator Paschoal da Conceição (aquele cara legal que é a cara do Mário de Andrade), o evento vai contar com a presença de convidados de diversas tribos, entre eles, índios (Ailton Krenak e o xavante Jurandir Siridiwe), mães e pais de santo, artistas, prostitutas, michês e operários, como informa a produção (que ainda não confirmou a presença de autoridades, como os secretários municipal e estadual da Educação). Todos se sentarão lado a lado para debater a criação desta universidade.
O encontro de antropofagia vai reunir, ainda, os atores e músicos da Cia Teatro Oficina para encenação do manifesto. A transferência do terreiro do Oficina para o Sesc Avenida Paulista leva junto a projeção de vídeo, câmaras ao vivo, assim como banda e música também ao vivo.
Oswaldiano de cabo a rabo, como diz Zé Celso, foi o modernista que o inspirou em sua estética dos palcos. Corrêa diz, por exemplo, que o manifesto "O Teatro que é Bom", de Oswald de Andrade, foi ponto fundamental para toda sua obra. Neste manifesto, Oswald faz um elogio ao teatro de estádio, ao teatro "rebolante", feito para multidões, 15 mil, 20 mil pessoas, no qual exista uma pujança da cultura. "Ele tem ainda um manifesto maravilhoso chamado 'Crise da Filosofia Messiânica', da qual muito me identifico", diz. "Trata-se de um filósofo originalíssimo. Exprime a antropofagia que dá na miscigenação, um aspecto que nem a tradição filosófica francesa, altamente qualificada, pensou um dia", diz.
Mas voltando à universidade... o dramaturgo diz que quer criá-la no entorno tombado do Teatro Oficina, lá onde Silvio Santos quer construir seu polêmico shopping center. "Muito mais interessante utilizar o espaço para a cultura viva, que reuniria a tal universidade popular, além de uma área verde, uma "Oficina de Florestas", como previu Caetano Veloso, em "Sampa". "Um espaço que poderia, por exemplo, ser utilizado como sede de outros grupos teatrais, como o Vertigem. Um espaço ideal para a construção do campus da Universidade Popular de Cultura Orgiástica Brasileira, que formará líderes experimentadores e pensadores vicerais, transformadores dos tabus rejeitados no Saber Dominante em totens. Queremos que esta região vire 'um pulmão cultural'".
Para isto, Zé Celso trava, neste momento, uma briga interminável com o grupo Silvio Santos. Sua luta é amparada pela lei de tombamento do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat), que tombou o teatro em 1983. Ops, reconheceu o tema? Pois é... enfim, o "assunto do dia" em Pinhal, neste momento.. e que deveria ser discutido em praça pública também aí.
Zé Celso rebolou e conseguiu ganhar uma liminar na justiça para que o shopping não seja construído. Ele comemora: "Shopping é Carandiru de luxo".
A cerejinha no bolo do banquete deve ser o discurso-dançante do Zé, que prometeu surpresas. E então, caro pinhalense, vamos a esta festança chupar ossinhos de perninhas de rã?

Segunda-feira, 12 de Maio de 2008

Não Sobre o Amor


Ontem fui ver a peça "Não Sobre o Amor", da Sutil Companhia, peça de câmara, como me disse Hirsch em entrevista na semana passada. Ainda tô respirando a poesia toda que presenciei no palco do CCBB. Adoro teatro, mas tenho uma certa dificuldade de me jogar na história como faço no cinema... Desta vez, ajudei o mocinho a pilotar seu cavalo, beijei a princesa. Vejam que linda esta cena da peça... daniela Thomas arrasô. Cenarista luxo!

Sexta-feira, 9 de Maio de 2008

Diálogos possíveis

Trânsito, Trânsito, trânsito... O trânsito de São Paulo está impossível. Mias desumano a cada semana. Fica difícil imaginar que a cidade ganha 800 novos carros por dia. Pense! Um deslocamento simples, que, três anos antes, fazia em 30 minutos, hoje realizo em nada menos do que uma hora e pouco. Se não for mais... Para chegar a tempo aos compromissos, saio, às vezes, com até duas horas de antecedência.
Tenho uma amiga que tem fez de seu carro seu templo. Adora trânsito. Diz que aprendeu a meditar dentro do automóvel, que aproveita os momentos em que está só para o autoconhecimento, aproveita e faz as unhas, se maquia, lê futilidade e filosofia etc. Como até hoje mantive meu espírito ecológico, não penso na hipótese de ter carro em São Paulo. Isso não me livra do desgosto de passar parte do dia na condução, já que nos corredores especiais para ônibus, o negócio também está feio. Os ônibus simplesmente não andam. Como é humanamente impossível meditar numa condução coletiva, o negócio é aproveitar da melhor forma possível, para que a vida não se transforme num inferno. Aprendi a bisbilhotar a intimidade alheia. E quer coisa mais gostosa? Quando dou a sorte (o que é raro) de achar um assento livre, aproveito e brinco de desvendar a alma do brasileiro... Estes dias, peguei um bloquinho e anotei alguns trechos de conversas...
Moça aflita ao telefone
- Cê falou que ela ia, mas daí não vai dar para mim ir.
silêncio
- Quando ela sair daí, eu vou ver se vou poder entrar.
silêncio
- Quando eu estiver aí, você pode voar com ela daí, senão vou dar barraco, cê me conhece.
silêncio
- Se liga, meu. Vai dizer ainda que é presepada minha?
longo silêncio
- Então tá, amor, beijinho no queixo e no pescoço. Mas veja o que falei. Do contrário, não vamos poder estar juntinhos. E eu quero, você sabe.

O gerúndio ainda faz sucesso (na boca de duas moças sorridentes)
- Vou estar vendo se vai valer a pena.
- Mas você vai gostar, o cobertor é lindo, macio.
- Fofa, você está querendo me irritar hoje.
- O que? Bobagem, briga não, boba. Depois, para quem você vai chorar pitangas quando brigar com o bofe?
O gerúndio com toda a força, em versão pós-moderna
- eu tava cumeno naquele buteco da isquina naquele dia, sabe qual? O do feijão brilhante.
- Nem me fale, que eu tô regimando, só de falar em comida a canela engorda.
- faz dias que só tô pensano em cumida... tô fazeno regime de engorda.
- Tá boa? Cê tá ficano linda com este corpão mais arredondado.

A linguagem de dois gays (que devem trabalhar com moda ou afins)
- Nhaí? Arrasô no modelon, bi.
- eu tava de olho numa do Herchcovitch. Mas outro dia vi um bofe com a mesma numa buati de pegação.
- E você aqüendou o bofe, bi?
- ai, bem que a tata quis, mas a tata é fina e não chegou junto, não. Guardei finesse de vida.

Economia popular (na boca de um rapaz e uma senhora)
- aumentou o arroz, cê viu?
- ah, eu vi, uma notícia que era boa, bacana até, o jornalista fala que arroz tem alma mesmo depois de cozido, até seco tem.
- mas quem é que gosta de arroz nos dias de hoje? Arroz é só pro caldo do feijão não escorregar para fora do prato.
- nossa, cê fala isso? Eu adoro arroz. Minha menina faz de vez em quando um risoto maravilhoso. Fez um que era de castanhas, ou nozes, não sei mais.
- riso do que?

Isabella
- ai, tô de saco cheio dessa historiada toda. Isso num vai acabar, não?
- que desrespeitro você falar isso, tadinha da menina, ela não tinha culpa, a inocente.
- tá bom, mas a televisão fez uma novela em cima, você não vê? Ixagera.
- tá, mas, dá dó.
- Tá, então, mas seja mais respeitosa, pensa na mãe.
- ai, pára. Senão te jogo para fora da janela.
- vai me jogar como os pais dela jogaram a pobrezinha da infeliz?

E viva a nossa cultura popular!
É isso por hoje. Bom fim de semana a todos!

Quinta-feira, 8 de Maio de 2008

Onde está o calendário cultural de Pinhal?

Mais uma vez recebi uma cartinha malcriada (desta vez de funcionárias da prefeitura) em resposta a meus textos sobre a cultura na minha cidade.;.. Pinhal. segue minha resposta, que foi publicada no jornal A Cidade...

Com apenas uma uma pergunta.. esta acima... é possível derrubar por terra o texto-propaganda de Rosa Cavagnolli e Loriane Salvi - funcionárias da prefeitura - publicado na edição passada deste semanário. Em tal amontoado de palavras, fazem propaganda de uma política cultural de Pinhal, que é inexistente... e todos sabem disso. Falta na cidade, infelizmente, uma política cultural engajada e falta uma política de esclarecimentos em relação à cultura... Querem um exemplo? Cadê a documentação que autoriza o restauro do Theatro Avenida? Sim, estudo lingüística, como as senhoras sugerem, e bem sei o motivo de me atacarem como um jornalista que falseia a verdade, enquanto deviam se manifestar de forma regulamentar... Não têm argumentos que dêem base ao que escrevem. A propaganda que fazem do governo é rasa como um pires, não tem "sustância". Neste espaço, mais do que articular idéias, procuro me manisfestar como cidadão... e me baseio na lei. Sempre! Já que citam a Constituição Federal, devem saber que o artigo 5, inciso XXXIII, diz que todos têm o direito de receber informações de órgãos públicos de interesse geral ou coletivo... fato inaugural de um estado democrático de direito. Sabiam?Só faço perguntar...e nada mais. Meu interesse político em Pinhal se manifesta a partir da condição de cidadão. E minha problematização é sempre a cultura, se é que percebem. Falo sempre em meus textos que o pinhalense fica a ver navios quando o assunto é cultura.. não vê a cultura acontecer... por mais que Pinhal tenha vocação para a cultura. Desculpem a redundância, mas quero que a questão cultural fique gravada no leitor deste jornal. Aproveito a oportunidade para alguns questionamentos...
Qual o orçamento para a cultura na cidade?
Por que não foi feita uma concorrência pública para a execução da obra do teatro na gestão do prefeito anterior?
Se foi feita, onde estão os documentos?
Esta administração atual pediu tais documentos ao prefeito anterior?
E onde estão as plantas para o restauro feitas por Elza Niero?
Por que o site da prefeitura, na internet, traz apenas duas notícias tão vagas? (Uma sobre a participação do diretor de cultura em um debate em São Paulo e outra sobre um salão de turismo).
Por que o site não mostra ao pinhalense o que foi discutido no debate, que aconteceu no teatro Augusta, e quais os benefícios isto podia trazer a Pinhal?
Por que a área relativa à cultura no site parece uma coluna social, com fotos?
Não há nada de mais relevante a publicar?
Já viram o site do município de São João da Boa Vista no quesito cultura?
Vão vir me dizer que estas cidades têm realidades muito distintas?
Já viram que lá há um festival estudantil de teatro, a Semana Guiomar Novaes, a Semana de Escultura Fernando Furlanetto, a Semana de Literatura Pagu, uma exposição de Língua Portuguesa, um festival regional de dança, entre outras festividades?
Por que não há festivais culturais em Pinhal, se a cidade tem vocação para a cultura desde que foi fundada?
Por que a Pin Pauli foi abandonada na lembrança? E os Jogos da Primavera? E a festividade Norte-Sul?
Por que o departamento de cultura não tem programadores culturais atuantes e habilitados?
Por que não há nem nunca houve uma política de preservação do núcleo histórico de Pinhal?
Por que tantos casarões foram demolidos?
Cadê o casarão Dante Alighieri?
Por que a cidade não tem uma festa que celebre os povos italianos, como faz Jacutinga?
Por que a cidade não tem uma semana cultural como aquela da cidade de Jacutinga?
Por que os prefeitos de Pinhal se recusam a citar a Associação Pinhalense de Cultura (APC), que fez um trabalho hercúleo ao reunir os herdeiros do Theatro Avenida para a compra do prédio pela municipalidade?
Por que nunca se deu os devidos créditos ao levantamento histórico realizado pela APC?
Por que a biblioteca não tem bibliotecários?
E por que os computadores ainda não chegaram?
Por que ainda chove torrencialmente no prédio do museu?
Por que?
Só Deus sabe por quê.
Apelar para Rui Barbosa para compor um texto solene - como fizeram na semana passada - é fácil... quero respostas efetivas. Tenho meus direitos. E as respostas não devem ser dirigidas a mim, mas devem ir de encontro com os anseios da comunidade toda. Se começam um relato com Rui Barbosa, me dou o direito de terminar este aqui com um poeminha muito simples do Paulo Leminski.. que, por sinal, vai de encontro com as chuvas que acabam com o acervo do museu...
"novas telhas
à primeira chuva
novas goteiras"
( do livro "Distraídos Venceremos", editora Brasiliense, 1987).

Terça-feira, 6 de Maio de 2008

Felipe e sua trupe em dois palcos

Há um ano, poucos dias antes de estrear “Educação Sentimental do Vampiro”, encontrei Felipe Hirsch bem-humorado e desembaraçado, decidido como um peixe que pula n’água, na frente da platéia formada de estudantes de artes dramáticas, no auditório do Sesi, para o primeiro ensaio geral da peça. Ele disse, se não me engano: “Gente, de tudo o que vocês vão ver esta noite, quase tudo pode mudar. Escolhemos a seqüência dos quadros há apenas 20 minutos. A luz ainda não foi gravada. O espetáculo ainda está um caos.” Sua aparente apreensão nada tinha a ver com faniquitos de artista. A cada nova estréia, Hirsch quer tocar “no ponto emocional da platéia”, como diz. Alguns dias depois do ensaio aberto, após a estréia oficial da peça, Hirsch comemora: “Parece que consegui o tom certo. Em alguns de meus espetáculos, percebo que a primeira apresentação é confusa, estranha”.Ontem estive no Theatro Municipal de São Paulo para os ensaios de “O Castelo do Barba-Azul”, do compositor húngaro Béla Bartók, que Felipe leva aos palcos a partir de domingo, numa produção lindíssima. A encenação foi feita em parceria com a cenógrafa Daniela Thomas e reforça o caráter simbolista da ópera. Espelhos e projeções criam o clima para a história e agregam significados à alegoria de Bartók e seu libretista, o poeta Béla Balázs.A soprano Céline Imbert, que completou 20 anos de carreira em 2007, empresta sua potência vocal e sua habilidade interpretativa para o papel de Judith. Já o Duque Barba-Azul será cantado pelo baixo-barítono Stephen Bronk, norte-americano radicado no Brasil que tem sido responsável por memoráveis interpretações nos teatros do país.É pouco? Felipe ainda estréia na sexta “Não Sobre o Amor’, inspirada na relação epistolar do russo Victor Shklovsky com a franco-russa Elsa Triolet. Juntas, peça e ópera tratam do amor... não é legal? No caso da ópera, aborda a tragédia e na peça, fala da relação amor-palavra-exílio. Ops, na foto, destaque para o cenário que Daniela fez para a ópera.

Domingo, 4 de Maio de 2008

Degustação, um ritual que pede etiqueta


Na tarde da última segunda-feira, Fernando Silva, empresário da área de segurança da informática, delegou funções a seus funcionários, e seguiu para a ExpoVinis - o maior encontro de negócios do vinho da América Latina, que reuniu enólogos, sommeliers, chefs, produtores, amantes da bebida e curiosos.
Silva era apenas um curioso entre uma multidão de connaisseurs no Transamérica Expo Center. Chegou ao local às 17h30. Tratou logo de comprar uma taça de cristal, por R$ 25, na pequena boutique montada no lugar. Percorreu mais de 20 estandes e provou dezenas de vinhos. Preferiu os nacionais, e queria muito vê-los entre os "top" do mundo. Em um estande de vinhos franceses, "já meio alegrinho", conforme disse, revirava um tinto encorpado com sua taça, enquanto emendava, sorridente: "preciso parar... não posso abusar."
"Já provei quase tudo o que quis. Há expositores, porém, que desprezam o consumidor comum. Não oferecem suas melhores garrafas aos meros mortais", contou ele, que insistia, no estande da importadora Reloco, para dar um pequeno gole no vinho Sofia, que tem uma linda cor fúcsia, perfume de morangos selvagens e pétalas de rosas, sabor de casca de laranja adocicada e traz a grife da família Coppola.
Se Silva não teve a sorte de provar o vinho criado por Francis Ford Coppola em homenagem a sua filha, Sofia, também cineasta, foi feliz num estande italiano, onde encontrou um amigo trabalhando. "Provei um Barolo de R$ 1,2 mil. Mas acho um absurdo pagar tudo isso numa garrafa. Um vinho com este preço tem de fazer você levitar, não menos do que isso", avaliava, entre risadas.
Na noite de segunda-feira - primeiro dia do evento -, pouco antes de um alto-falante anunciar que os presentes deveriam deixar o recinto, muita gente "levitava". Numa salinha da carioca Reloco, onde vips provavam o Sofia, o clima era de festa. "Este vinho é bom mesmo", dizia, às gargalhadas, o empresário Max Moreira de Castro ao colega Marcos Costa. De repente, ao tentar alcançar a taça de cima de um balcão, Castro dá um banho no amigo... e o deixa rosé. "A cada degustação saio tingido se fico ao seu lado", provocava um bem-humorado Costa, precisando segurar o peso do corpo no balcão, que, a essa altura, também era tingido de rosé.
Marcelo Copello, crítico de vinho da Gazeta Mercantil, ao ver a cena, ria e apontava a dupla para dizer, também com muito bom-humor: "E a festa vai começar". Segundo Copello, em degustações populares como esta, o público, em geral, costuma abusar do bom senso. "Numa noite, um profissional que lida com vinhos degusta até cem rótulos. O segredo, porém, está em provar e cuspir, provar e cuspir", dava a dica.
"Muita gente vai a degustações pensando que vai participar de uma festança. Não é. Isto é uma feira para profissionais. Se você fica de pileque, perde a sensibilidade para degustar", ensinava Douglas Andreghetti, do Wine Stock, um clube de degustadores.
Em uma das concorridas salas vips da Expo Vinis, Andreghetti tomava espumante com Diego Bertolini, gerente de promoção do Instituto Brasileiro do Vinho, enquanto dizia que um amador deve seguir os conselhos de profissionais para não fazer feio em degustações.
Regras e transgressões Profissionais ou não, as degustações seguem regras básicas. Entre elas, a primeira é não ficar bêbado. "Degustar um vinho é submetê-lo a seus órgãos dos sentidos, analisando-o atentamente. Degustar é beber com atenção. A degustação, como técnica, deve ser realizada em locais adequados, com boa iluminação e livre de odores, tomando-se o cuidado de servir o vinho em taças adequadas e na sua correta temperatura de serviço", prega Arthur Azevedo, diretor-executivo da Associação Brasileira de Sommeliers.
Azevedo conta que uma degustação é dividida em três fases, a análise visual, olfativa e gustativa, nesta ordem, obrigatoriamente. "Antes de se começar, deve-se estar atento para a maneira de segurar a taça, sempre pela base ou pela haste e nunca pelo corpo do copo, para não alterar a temperatura do vinho e para não sujar o copo, dificultando a visualização do vinho", destaca.
Nenhuma das etapas pode ser negligenciada. "Poucas pessoas param para apreciar a cor do vinho, por exemplo. O visual dá pistas sobre a sua evolução, sua maturidade ou mesmo o seu teor de álcool", afirma. Uma boa analise visual leva em conta a intensidade de cor, a tonalidade e as lágrimas", continua. "Coloca-se a bebida em um terço do copo. Aprecia-se o vinho ao nível dos olhos, e, depois, inclina-se a taça a 45 graus." Para acompanhar os vinhos durante uma degustação, recomenda-se água mineral e pão francês simples. E só.
Muita gente, na ExpoVinis, parecia desconhecer ou ignorar as regras básicas de uma degustação. Muitos comiam amendoim, salgadinhos e queijos variados. Pareciam não saber nem mesmo que o Roquefort "mata" o sabor de um vinho. Coisa básica, conforme os iniciados.
Outros, pareciam participar de uma corrida... ao toilete. Emcorre-corre intenso, não paravam de ir ao lugar para lavar suas taças. E espirravam água em todos que ali se encontravam. Bem, em uma degustação não é necessariamente imposto lavar a taça entre os vinhos.
Nem mesmo parte da comunidade francesa - acostumada a lidar com a bebida desde a infância -, presente na sala vip em que era lançada uma linha de rosés da Provence, parecia se importar com as regras básicas de degustações. Tomados pelo deus Baco, todos riam, se abraçavam e se empurravam... como se estivessem em uma feira livre.
Em degustações para o trade as gafes são, naturalmente, menores. São mais silenciosas e reúnem um seleto número de convidados. Na degustação de 30 dos vinhos mais representativos do portfólio da importadora Expand, na semana passada, jornalistas e especialistas discutiam quais vinhos eram imperdíveis ali.
Rodrigo Martins, campeão paulista de sommelier do ano passado, um dos convidados, dizia: "Costumo degustar até 80 vinhos em duas ou três horas. A dica é provar todos os rótulos dispostos na degustação. Se um produtor aparece com mais de um vinho, é seu produto mais básico que vai dizer se o produtor é bom ou não. Seu vinho mais simples tem de ser supercaprichado", observava. Outra dica de Martins: idade e preço alto não significam qualidade.
Para Martins, degustações são também bons lugares para se fazer amigos. "Mas quem quer se iniciar no mundo do vinho deve obrigatoriamente fazer um curso básico para, assim, aprender o vocabulário especializado. Assim o candidato não faz feio".
Alex Sacramento, outro convidado da Expand, e criador de um clube de degustação às cegas chamado "Oito Vinhos e um Intruso", comenta: "Hoje em dia, todo mundo quer participar do mundo dos vinhos. Virou moda conhecer vinho. Virou chique ser afetado. No entanto, ninguém tem obrigação de ser uma enciclopédia de enologia". Ele avisa que as normas citadas em manuais de connaisseur são apenas recomendação. Transgredi-las é possível, sem que isso seja um sacrilégio.