
Na tarde da última segunda-feira, Fernando Silva, empresário da área de segurança da informática, delegou funções a seus funcionários, e seguiu para a ExpoVinis - o maior encontro de negócios do vinho da América Latina, que reuniu enólogos, sommeliers, chefs, produtores, amantes da bebida e curiosos.
Silva era apenas um curioso entre uma multidão de connaisseurs no Transamérica Expo Center. Chegou ao local às 17h30. Tratou logo de comprar uma taça de cristal, por R$ 25, na pequena boutique montada no lugar. Percorreu mais de 20 estandes e provou dezenas de vinhos. Preferiu os nacionais, e queria muito vê-los entre os "top" do mundo. Em um estande de vinhos franceses, "já meio alegrinho", conforme disse, revirava um tinto encorpado com sua taça, enquanto emendava, sorridente: "preciso parar... não posso abusar."
"Já provei quase tudo o que quis. Há expositores, porém, que desprezam o consumidor comum. Não oferecem suas melhores garrafas aos meros mortais", contou ele, que insistia, no estande da importadora Reloco, para dar um pequeno gole no vinho Sofia, que tem uma linda cor fúcsia, perfume de morangos selvagens e pétalas de rosas, sabor de casca de laranja adocicada e traz a grife da família Coppola.
Se Silva não teve a sorte de provar o vinho criado por Francis Ford Coppola em homenagem a sua filha, Sofia, também cineasta, foi feliz num estande italiano, onde encontrou um amigo trabalhando. "Provei um Barolo de R$ 1,2 mil. Mas acho um absurdo pagar tudo isso numa garrafa. Um vinho com este preço tem de fazer você levitar, não menos do que isso", avaliava, entre risadas.
Na noite de segunda-feira - primeiro dia do evento -, pouco antes de um alto-falante anunciar que os presentes deveriam deixar o recinto, muita gente "levitava". Numa salinha da carioca Reloco, onde vips provavam o Sofia, o clima era de festa. "Este vinho é bom mesmo", dizia, às gargalhadas, o empresário Max Moreira de Castro ao colega Marcos Costa. De repente, ao tentar alcançar a taça de cima de um balcão, Castro dá um banho no amigo... e o deixa rosé. "A cada degustação saio tingido se fico ao seu lado", provocava um bem-humorado Costa, precisando segurar o peso do corpo no balcão, que, a essa altura, também era tingido de rosé.
Marcelo Copello, crítico de vinho da Gazeta Mercantil, ao ver a cena, ria e apontava a dupla para dizer, também com muito bom-humor: "E a festa vai começar". Segundo Copello, em degustações populares como esta, o público, em geral, costuma abusar do bom senso. "Numa noite, um profissional que lida com vinhos degusta até cem rótulos. O segredo, porém, está em provar e cuspir, provar e cuspir", dava a dica.
"Muita gente vai a degustações pensando que vai participar de uma festança. Não é. Isto é uma feira para profissionais. Se você fica de pileque, perde a sensibilidade para degustar", ensinava Douglas Andreghetti, do Wine Stock, um clube de degustadores.
Em uma das concorridas salas vips da Expo Vinis, Andreghetti tomava espumante com Diego Bertolini, gerente de promoção do Instituto Brasileiro do Vinho, enquanto dizia que um amador deve seguir os conselhos de profissionais para não fazer feio em degustações.
Regras e transgressões Profissionais ou não, as degustações seguem regras básicas. Entre elas, a primeira é não ficar bêbado. "Degustar um vinho é submetê-lo a seus órgãos dos sentidos, analisando-o atentamente. Degustar é beber com atenção. A degustação, como técnica, deve ser realizada em locais adequados, com boa iluminação e livre de odores, tomando-se o cuidado de servir o vinho em taças adequadas e na sua correta temperatura de serviço", prega Arthur Azevedo, diretor-executivo da Associação Brasileira de Sommeliers.
Azevedo conta que uma degustação é dividida em três fases, a análise visual, olfativa e gustativa, nesta ordem, obrigatoriamente. "Antes de se começar, deve-se estar atento para a maneira de segurar a taça, sempre pela base ou pela haste e nunca pelo corpo do copo, para não alterar a temperatura do vinho e para não sujar o copo, dificultando a visualização do vinho", destaca.
Nenhuma das etapas pode ser negligenciada. "Poucas pessoas param para apreciar a cor do vinho, por exemplo. O visual dá pistas sobre a sua evolução, sua maturidade ou mesmo o seu teor de álcool", afirma. Uma boa analise visual leva em conta a intensidade de cor, a tonalidade e as lágrimas", continua. "Coloca-se a bebida em um terço do copo. Aprecia-se o vinho ao nível dos olhos, e, depois, inclina-se a taça a 45 graus." Para acompanhar os vinhos durante uma degustação, recomenda-se água mineral e pão francês simples. E só.
Muita gente, na ExpoVinis, parecia desconhecer ou ignorar as regras básicas de uma degustação. Muitos comiam amendoim, salgadinhos e queijos variados. Pareciam não saber nem mesmo que o Roquefort "mata" o sabor de um vinho. Coisa básica, conforme os iniciados.
Outros, pareciam participar de uma corrida... ao toilete. Emcorre-corre intenso, não paravam de ir ao lugar para lavar suas taças. E espirravam água em todos que ali se encontravam. Bem, em uma degustação não é necessariamente imposto lavar a taça entre os vinhos.
Nem mesmo parte da comunidade francesa - acostumada a lidar com a bebida desde a infância -, presente na sala vip em que era lançada uma linha de rosés da Provence, parecia se importar com as regras básicas de degustações. Tomados pelo deus Baco, todos riam, se abraçavam e se empurravam... como se estivessem em uma feira livre.
Em degustações para o trade as gafes são, naturalmente, menores. São mais silenciosas e reúnem um seleto número de convidados. Na degustação de 30 dos vinhos mais representativos do portfólio da importadora Expand, na semana passada, jornalistas e especialistas discutiam quais vinhos eram imperdíveis ali.
Rodrigo Martins, campeão paulista de sommelier do ano passado, um dos convidados, dizia: "Costumo degustar até 80 vinhos em duas ou três horas. A dica é provar todos os rótulos dispostos na degustação. Se um produtor aparece com mais de um vinho, é seu produto mais básico que vai dizer se o produtor é bom ou não. Seu vinho mais simples tem de ser supercaprichado", observava. Outra dica de Martins: idade e preço alto não significam qualidade.
Para Martins, degustações são também bons lugares para se fazer amigos. "Mas quem quer se iniciar no mundo do vinho deve obrigatoriamente fazer um curso básico para, assim, aprender o vocabulário especializado. Assim o candidato não faz feio".
Alex Sacramento, outro convidado da Expand, e criador de um clube de degustação às cegas chamado "Oito Vinhos e um Intruso", comenta: "Hoje em dia, todo mundo quer participar do mundo dos vinhos. Virou moda conhecer vinho. Virou chique ser afetado. No entanto, ninguém tem obrigação de ser uma enciclopédia de enologia". Ele avisa que as normas citadas em manuais de connaisseur são apenas recomendação. Transgredi-las é possível, sem que isso seja um sacrilégio.