segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Cinema de volta a Pinhal



Sempre que topo com alguém de uma cidade que não conheço, a forma de eu saber se este lugar é desenvolvido ou não, é perguntar se neste lugar há salas de cinemas. Mesmo que não more em Pinhal, a cidade onde nasci, e que bem próximo a minha casa, em São Paulo, tenha pelo menos 20 salas de cinema, foi sofrido saber, há alguns meses, que o cinema da Galeria Casarão havia fechado as portas.
Em Pinhal temos fases com e sem cinema. Quem não sofreu ao passar pela praça e ver o Cine Santa Clara ser destruído? Ou quem não se chocou ao saber que o Éden ia fechar nos anos 80? Isso sem contar no Cine Theatro Avenida (foto), onde meu avô, o Eduardinho Staut, fazia trilha sonora ao vivo com sua Pinhal Jazz, nos anos 40. Alguém se lembra? Algum de vocês estava lá para me contar detalhes desta história? Depois veio o cine da Galeria Casarão, que durou uns bons anos, até fechar as portas por falta de público.
Agora, graças à parceria entre Humberto Pascuini com Silvio Brittis, da empresa Cine Art Café, o cinema está de volta... É para se comemorar! E a melhor forma de se fazer isso, é ir ao Casarão para prestigiar os filmes que estão passando no momento.
Desde que entrei pela primeira vez nesta sala, percebi que era aconchegante, elegante, e que ali podia passar bons momentos de diversão. Posso me lembrar ainda hoje de alguns bons filmes que vi ali... entre eles, “Poderosa Afrodite”, do Woody Allen, em companhia de minha querida amiga Marta Benaglia. Outros que vi, quieto, sozinho, durante a semana, em dias meio tristonhos, no ano de 2007.
Quem não se emociona ao ver um filme no telão? Nem a maior TV do mundo traz tanta emoção do que entrar numa sala, com um pacote de pipoca. Sou como o escritor Millôr Fernandes, que diz que a cada vez que vê um filme no telão, é como se corresse junto com o mocinho protagonista do filme, em cima do cavalo.
Liguei para a Olívia Ramon, editora do jornal A Cidade, onde mantenho uma coluna semanal (e para qual mandei este texto, na sexta) para saber qual filme está passando na Galeria Casarão. E ela me disse que está sendo exibido “This is It”, do diretor Kenny Ortega.
O filme foi feito a partir de 80 horas de filmagens dos ensaios do show que Michael Jackson faria em Londres. Um belo filme para quem gosta do astro pop, para quem gosta de música, e principalmente, para quem não abre mão de se emocionar de verdade no cinema. Vale a visita! Mas vc que mora na cidade leve também seu filho para ver o infantil que passa nas matinês. É importante mostrarmos as coisas boas para as crianças deste cedo.
Desejo sucesso aos empresários que se juntaram para reabrir o cinema da nossa cidade. Ela agradece...
ps – a ideia de pedir a prefeitura para comprar uma cota de ingressos para a população carente é muito boa. Gostaria que o poder público se comovesse e desse as mãos aos empresários do novo cinema.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

"Gentileza é o sal da vida" (Christine Yufon)

No jardim de sua casa, no bairro paulistano de Higienópolis, espero Christine Yufon ao lado de uma dezena de esculturas que criou ao longo de sua carreira. Num quimono preto, ela desce esguia, concentrada, uma pequena escada que liga sua sala à parte alta do jardim. Cumprimenta alguns amigos que estavam ali para um chá da tarde, em que celebraria a primavera.
Paradigma da etiqueta no Brasil, esta senhora de fé católica, filosofia taoísta e sotaque americano, nasceu em Beijin, na China, casou-se com um francês, viveu em Paris, viajou pelos quatro cantos do planeta, até se estabelecer em São Paulo. Aqui, foi modelo numa época em que poucos sabiam o que era profissão, e hoje se dedica às artes plásticas, ao desenho de jóias, além de ministrar – desde os anos 60 - um curso de etiqueta dos mais famosos do Brasil, pelo qual passou a nata da sociedade paulistana.
“Vocês estão bem”, pergunta para cada um de seus convidados. E vai logo dizendo que etiqueta não deve ser algo relacionado com um amontoado de regras antiquadas, rígidas e pedantes. Mas o que é então etiqueta para esta senhora? Ela abre um sorriso e diz que etiqueta é algo que serve para facilitar o convívio entre pessoas. “Serve para tornar harmonioso o convívio. A gentileza é o sal da vida”.
Ela passa os olhos na bela mesa criada por seu amigo, o chef Carlos Ribeiro, para o chá da tarde, elogia os quitutes que ele preparou, e a cerâmica de Hideko Honma. Olha então para mim, que estava ali para uma entrevista sobre etiqueta e diz: “Etiqueta tem que ser alguma coisa dinâmica. Evolui de acordo com épocas, apesar de ter sido criada a partir de um conjunto de regras criadas na França e na Inglaterra, há muito tempo. Hoje, o pragmatismo está fora de moda. Encontros como este chá da tarde tendem a ser mais informais e espontâneos. A etiqueta tradicional pode ser usada apenas em situações protocolares, que exigem ritualísticas”.
Para ela, em situações mais informais, como um jantar, um chá entre amigos, uma festa num jardim pedem bom senso, charme, simpatia e ponto.
Mesmo que tenha saído de seu país de origem há tantas décadas, diz que a cultura milenar chinesa permeia ainda seu estilo de vida e suas aulas de etiqueta. “É uma cultura que presa pela delicadeza, então a primeira coisa que ensino às minhas alunas é nunca se esquecer de algumas palavrinhas mágicas quando você encontra uma pessoa: bom dia, boa tarde, por favor, obrigada, desculpe, licença. Parece bobagem, mas muita gente se esquece destas palavras”, diz ela.
Para Christine, que organizou o chá da tarde com a ajuda de seu fiel amigo Carlos Ribeiro, o sucesso ou o fracasso de qualquer tipo de evento depende da escolha dos convidados. Eles precisam ter algumas afinidades entre si, mas é preciso apostar na diversidade, chamar pessoas de universos totalmente diferentes. “Assim a reunião é mais divertida e os assuntos podem girar em torno de temas diferentes”, diz. Se houver alguém famoso na festa, é preciso tratar esta pessoa com deferência e naturalidade, procurando zelar para que ninguém monopolize esta pessoa.
A mesa, conforme diz, deve ser acolhedora, agradável de ver e a decoração vai depender da natureza da recepção. Neste caso, em que a informalidade deu o tom ao encontro, Christine diz que o melhor é que se opte pelo estilo americano, em que cada convidado se serve e escolhe livremente aonde vai se sentar. “Neste caso o anfitrião pode servir ele mesmo o drinque, o chá, o cafezinho”, observa.
Para o chá de Christine, o chef Carlos Ribeiro optou por um cardápio leve e cheio de quitutes brasileiros, com algumas preferências da anfitriã, gosta muito da cozinha nacional. Fez bolo de rolo, bolachas de jasmim, broa de erva doce e os serviu com compotas brasileiras, como bacuri, abóbora, goiaba, cupuaçu e buriti. Hideko Honma, ceramista que criou as peças dispostas na mesa, diz que para fazer sua composição baseou-se no princípio oriental, pelo qual todos os utensílios em cima de uma mesa devem ter utilidade. “Na cultura oriental, o enfeite pelo enfeite não vale de nada. Por isso as mesas são sempre minimalistas”.
Christine disse que numa reunião em casa, íntima ou não, é necessário que o anfitrião não zele pela boa ordem da residência durante a reunião. “Isso vai deixar seus convidados sem jeito”, observou ela, que ao fim desta reunião chamou todos seus convidados à beira da mesa e os presenteou com canções em mandarim que aprendeu nos anos 20, na China.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Um viva para a “tarte tatin” do Opção


Não há sobremesa melhor neste mundo do que uma tarte tatin bem dourada, fumegante, com cheirinho de maçãs caramelizadas. Diz a história que este prato francês nasceu de um erro da gastronomia. Certo dia, ao desenformar a torta, as irmãs Stéphanie e Caroline Tatin viraram a forma sem querer e o recheio – as maçãs caramelizadas – ficou na parte de cima, em vez de ficar em baixo. A massa, que devia ficar aparente, como em todas as tortas, ficou embaixo das maçãs. Já que a sobremesa ficou bonita, elas passaram a servi-la assim, do lado contrário.
Nos anos em que morei na França ouvi esta história dezenas de vezes. A cada vez que estava num restaurante e que pedia minha sobremesa favorita, alguém me contava este “causo” culinário,como que para me inserir na cultura francesa.
Adoro repetir esta história do erro das irmãs Tatin. E adoro fazer tarte tatin para meus amigos. Todos já ouviram várias vezes a mesma história. Já estão cansados. Mas não me dou por vencido e a repito a cada vez que faço o prato. Nada mais lúdico do que uma torta que deu errado e que virou um primor da culinária.
Gosto tanto de tatin, que, desde os tempos que morava no país em que esta delícia foi inventada, faço um concurso particular de tarte tatin. Quase sempre começo a olhar o menu de um restaurante - do mais simples ao mais esnobe - pelas sobremesas, e, quando vejo escrito tarte tatin, peço entrada e prato principal apenas como burocracia, para depois saborear esta sobremesa tão simples.
Eis que na semana passada, na minha cidade, Pinhal (SP), visitei o bar e restaurante Opção, e, quando vi no cardápio uma sobremesa chamada Gratin de Maçãs, o nome me chamou atenção e me fez salivar. Comi minha entrada e meu prato principal, que estavam deliciosos, mas estava ansioso por provar algo que podia ser parecido com uma tatin.
Quando o gentil garçom colocou a sobremesa delicada e aromática na minha frente, vi que não havia maçãs em cima, como na torta tradicional. Juntei na minha colher um pedaço de sorvete de creme – acompanhamento obrigatório para uma tatin que se preze – e levei à boca a colherada. Sim, aquilo era uma tarte tatin. E das melhores que já provei!
Cheguei a pensar em virar a sobremesa do lado contrário. (Não sei se ficou claro, leitor, mas no Opção a torta é servida com a massa para cima e o recheio para baixo). Mas não achei necessário. Achei engraçado comer uma tatin do avesso. Ri com meus botões e raspei o prato como uma criança, sentindo cada pedaço quente da torta se misturar ao (muito bom) sorvete de creme servido ao lado. Fiquei feliz em saber que o público de Pinhal tem uma sobremesa tão boa, ao alcance, que nada deixa a desejar aos melhores restaurantes de comida tradicional da França.
Caso tenha ficado curioso com a receita desta torta, saiba que ela leva somente maçã, manteiga, açúcar, farinha de trigo e uma pitada de sal. Ingredientes tão simples que se juntam numa química dos deuses.
Segue a receita que sempre uso em casa. É do site WWW.panelinha.com.br.

Para a massa
Ingredientes
200 g de farinha de trigo 100 g de manteiga gelada em cubos1 colher (sopa) de açúcar 1 pitada de sal 1 a 3 colheres (sopa) de água gelada
Modo de Preparo
1. Corte a manteiga em cubinhos. Numa tigela, coloque a farinha e os cubinhos de manteiga e misture com as mãos, formando uma farofa.2. Em seguida, acrescente o açúcar e o sal e misture com as mãos. Adicione uma colherada de água gelada por vez, conforme a necessidade. Vá verificando o ponto da massa. Ela massa deverá ficar lisa e homogênea.3. Faça uma bola e embrulhe a massa com filme. Leve à geladeira por 2 horas.
Para o recheio
Ingredientes
6 maçãs 1/2 limão (para que as maçãs não fiquem escuras) 120 g de manteiga 1 1/4 xícara (chá) de açúcar
Modo de Preparo
1. Com uma faquinha afiada, descasque as maçãs e retire as sementes. Corte a maçã (na vertical) em 4 partes e regue com o suco de ½ limão.2. Numa panela, coloque o açúcar e a manteiga e leve ao fogo médio. Deixe a mistura escurecer um pouco. Em seguida, baixe o fogo e coloque as maçãs.3. Deixe cozinhar por cerca de 10 minutos, ou até que as maçãs sejam facilmente perfuradas com a ponta de uma faca. Desligue o fogo.4. Preaqueça o forno a 150ºC (temperatura baixa).5. Numa fôrma redonda antiaderente, distribua as maçãs sem deixar folgas. A seguir, coloque por cima das maçãs o restante da calda que ficou na panela. Polvilhe um pouco de canela em pó sobre as maçãs.6. Retire a massa da geladeira. Com o auxílio de um rolo de macarrão, abra a massa sobre um pedaço de filme maior que a fôrma.7. Com cuidado, coloque a massa sobre as maçãs e retire o filme. Corte os excessos com uma faquinha. Com a ajuda de um garfo, force as bordas da massa para baixo (lembre-se de que a torta será virada depois de assada).8. Leve a torta ao forno preaquecido e deixe assar por 25 minutos ou até que a massa fique dourada.9. Retire a torta do forno e deixe esfriar um pouco.10. Para desenformar a torta, coloque um prato sobre a fôrma, segure bem e vire de uma vez. Se a torta não desenformar de imediato, dê alguns soquinhos na fôrma. Não deixe a torta esfriar muito, pois você correrá o risco de ela ficar grudada na fôrma. Neste caso, e só em último caso, aqueça um pouquinho a torta em fogo baixo e repita a operação. Sirva a seguir com sorvete de creme.


quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Circo para espantar o baixo astral

E o baixo astral me pegou numa curvinha ali no canto da rua Augusta. Sei bem o que fazer para não cair nesta deprê, embora às vezes tenha dificuldade de virar a chavinha, que muda o ponto de vista das coisas.
Adoro gente que transforma maus sentimentos e loucura através da arte. Por isso gosto tanto do circo. Eita lugar para concentrar gente louca , que arrisca a vida pela arte, né?
para quem gosta como eu vamos lá...
Entre os dias 16 e 22 de novembro, o Centro de São Paulo recebe o 1º Festival Municipal de Circo, que reunirá uma mostra competitiva, a 4ª Palhaçaria Paulistana, e a inauguração do Centro de Memória do Circo, na Galeria Olido. No sábado, dia 21 de novembro, haverá também um encontro de malabaristas, das 11h às 16h, no Largo do Paissandu.
Pelo quarto ano consecutivo, a Palhaçaria Paulistana deverá reunir mais de 250 artistas de circo em uma semana de espetáculos gratuitos, em evento promovido pela Secretaria Municipal de Cultura em parceria com a Cooperativa Paulista de Circo.
Nesta edição, além do Vale do Anhangabaú, onde continuará sendo montada a lona principal com capacidade para 400 pessoas e o trapézio ao ar livre, onde acontecerão apresentações e atividades, outros endereços do Centro receberão atividades, como o Largo do Paissandu, berço do circo paulistano que se tornou ponto de encontro dos artistas circenses todas as segundas-feiras – dia de folga da categoria – que se reunia no “café dos artistas”, como era conhecido o local. Além disso, temporadas dos circos Irmãos Queirolo e Alcebíades marcaram o auge do circo na região. O palhaço Piolin, ícone circense que contava com a simpatia dos modernistas, freqüentadores assíduos dos seus espetáculos.
A mostra competitiva dará prêmios em dinheiro os melhores espetáculos inscritos voluntariamente pela internet, no endereço http://cultura.prefeitura.sp.gov.br/
As infos são da querida Flavia Fusco.

E viva o circo

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Loba de ray ban


Estreia no Teatro Shopping Frei Caneca na próixima semana a peça A Loba de Ray–Ban, uma versão da peça de Renato Borghi, originalmente encenada em 1987, "O Lobo de Ray-Ban" que trazia Raul Cortez e a própria Torloni no elenco (foto), além do ator Leonardo Franco na temporada carioca.
A história traz um triângulo amoroso com situações convencionais e de bissexualidade. Os personagens envolvidos são atores, fazem do teatro sua profissão e seu sacerdócio. São seres apaixonados e apaixonantes, capazes de resvalar o mais baixo do melodrama humano.
Numa noite, um espetáculo de teatro é interrompido pela atriz principal, que assume o clímax de sua crise existencial e afetiva diante do público. Revela-se o triângulo amoroso vivido por ela, envolvendo o ex-marido e sua atual amante, ambos atores da sua Companhia Teatral. Vamos assistir a uma brilhante discussão sobre moral e relacionamento amoroso. Vamos participar do cotidiano dos camarins e coxias de um teatro. Vamos testemunhar um desafio de interpretação, vividos por Christiane Torloni como Julia Ferraz, a atriz-empresária, e por Leonardo Franco e Maria Maya, o ex-marido e a amante.
Nesta versão, passados 22 anos, os papéis se invertem. Christiane Torloni passa a fazer o papel que era de Raul Cortez. Leonardo Franco o que era de Christiane e o papel do jovem ator, antes representado por Leonardo, agora será feito pela jovem atriz Maria Maya. Possi dirige esse trio na nova e desafiante A Loba de Ray-Ban.
Para o diretor José Possi Neto, a semelhança das duas montagens é o texto do Borghi, apaixonado, contundente, ousado e desafiador. “As diferenças são todas. Eu não sou o mesmo Possi de 22 anos atrás, Christiane e Leonardo também não o são, crescemos e amadurecemos como artistas e como seres humanos”, diz ele no release enviado pela assessoria Morente Forte.

domingo, 25 de outubro de 2009

Exclusão Cultural

Dados recentes do Ministério da Cultura (MinC) mostram que apenas 13% (26 milhões de pessoas) frequentam cinema apenas uma vez por ano; 92% (148 milhões) nunca freqüentaram um museu; 93,4% (176 milhões) jamais foram a uma exposição de arte; 78% (148 milhões) nunca assistiram a um espetáculo de dança; mais de 90% dos municípios não possuem salas de cinema, teatro, museus e espaços culturais multiuso; cerca de 600 municípios brasileiros nunca contaram com uma biblioteca, 440 somente no Nordeste; que, em média, o brasileiro lê 1,8 livros per capita/ano (são 2,4 na Colômbia e 7 na França); 73% dos livros estão concentrados nas mãos de 16% da população.
Os números se referem apenas à chamada alta cultura, pois não há levantamentos no Brasil das comunidades que fazem trabalhos artesanais, de festas e manifestações populares, da cultura imaterial (a gastronomia, por exemplo). Para trocar em miúdos, a cultura popular é pouco celebrada no país.
As cidades brasileiras, inclusive a minha – Espírito Santo do Pinhal -, refletem estes números catastróficos, sendo que apenas algumas conseguiram sair do vermelho no quesito cultura. Olinda, por exemplo, conseguiu que seu centro histórico fosse todo tombado. Hoje está quase todo restaurado, e em suas casas antigas funcionam bares, restaurantes, lojinhas de artesanato e galerias de arte. Parati é outro exemplo de cidade que conseguiu reverter o quadro. Além de ter sido restaurada, criou uma festa literária, que hoje é conhecida internacionalmente.
Nunca é demais refletir e pensar a cultura, pois cultura nada mais é do que o modo de vida de um povo, de uma comunidade. É a preservação do estilo de vida, pelo qual uma sociedade pensa a si mesmo, para que não caia nos erros do passado.
Por isso a conferência intermunicipal que aconteceu na semana passada em Pinhal é de extremo interesse. Pode gerar frutos, se houver fiscalização da sociedade civil, se houver acompanhamento, pois nós, cidadãos, somos os maiores interessados para que nossa cultura seja valorizada de forma satisfatória.
Já escrevi dezenas de vezes nas páginas de jornal da cidade que Pinhal tem potencial ímpar no que se refere à cultura. Temos uma linda cidade e temos tradição cultural desde pelo menos os anos 20. Imaginem que no começo do século XX o Theatro Avenida funcionava como cinema diariamente?
Não é possível que a coisa tenha desandado tanto. É muito triste passar pela cidade num sábado à noite e vê-la às moscas. A população de Pinhal é festeira. É só ver a quantidade de gente que circula pelo centro durante os dias de carnaval.
Acho que este grupo que diz estar empenhado na reconstrução da dignidade cultural da cidade tinha que pensar em formas de levar este pessoal todo ao centro o ano todo. Para isso seria preciso fazer uma reeducação cultural, mostrando, como alguns falaram neste encontro na Câmara, que cultura não é só “coisa de rico”. Claro que a alta cultura sempre vai existir, mas há de se encontrar uma forma de mostrar ao povo sua produção cultural. Como?
Acho que dá para começar a olhar para cidades que refletiram sobre sua cultura e que deram certo, como Parati, Olinda, entre tantas outras.
É preciso trocar experiência, e é preciso pensar grande e olhar para cidades europeias de porte pequeno e médio, que se tornaram lugares estimulantes, onde a população tem prazer de viver e de criar. Exemplos não faltam. Pegue por exemplo as pequenas cidades francesas do Vale do rio Loire. Ali, o cultivo do vinho que fez com que se desenvolvesse um tipo de turismo que atrai gente e dinheiro o ano todo, mesmo nos invernos rigorosos. Então é preciso perguntar: qual a vocação de Pinhal? Qual nossa vocação cultural?
E a partir desse questionamento, na minha modesta opinião, é preciso começar a criar programas culturais para nossa população. Programas que visem a população em geral e o turista que pode chegar (e gastar dinheiro) em Pinhal. Isso tudo depois da prefeitura local restaurar o prédio da biblioteca e do museu, reorganizando os acervos. Pois aquilo ali é vergonhoso para nossa cidade. É o que há de mais urgente a se fazer, por hora, no meu entender.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Recife inesquecível


Acabo de voltar do Recife (PE), onde cobri a 8ª edição do Festival Gastronômico de Pernambuco, que acontece até o dia 25 e que reúne 27 chefs convidados de todo o Brasil, que atuam em 27 restaurantes da capital, Jaboatão, Olinda, Ipojuca, Petrolina e Fernando de Noronha.
A abertura oficial do festival aconteceu na no dia 13 de outubro, no Palácio do Campo das Princesas, no Recife, com menu preparado pelos chefs de todos os 27 restaurantes participantes. Um lugar de tirar o fôlego de tão bonito.
Mas o melhor da festa foi conviver estes dias com chefs maravilhosos e com pessoas muito bacanas, dispostas a desvendar um pouco o que é o Recife para um paulista que nunca havia pisado em Pernambuco.
A cada mesa que me sentava, ouvia histórias muito boas sobre a colonização do estado, sobre os gostos da população para a gastronomia, a moda, festas populares etc.
Já na minha primeira noite em Pernambuco fui levado ao restaurante que mais esperava conhecer, o Oficina do Sabor, no centro histórico de Olinda (PE), do Cesar Santos (foto), o anfitrião da festa. Sentei-me numa mesa com o assessor de imprensa do festival, o gentilíssimo Fred Queiróz, o chef Carlos Ribeiro, do Na Cozinha (SP) e amigos. Ali percebi que o que gosto mesmo em matéria de gastronomia é de sentir sabores novos, que meus sentidos adoram provar misturas e texturas extravagantes, desde que bem executadas. Comi dois queijos de cabra frescos, um com cobertura de mel, mostarda e especiarias, outro com cobertura de berinjela; caranguejo com farinha de mandioca e tiras de carne de sol com fritas de mandioca (entradas); um baião de dois feito com frutos do mar no leite de coco; um jerimum recheado de camarões, temperado com erva doce; carne de sol com jerimum e purê de mandioca, além de uma sobremesa chamada Baba de moça (que lá é feito com tiras de coco verde) com quero mais neguinho, além de um bolo Souza Leão inesquecível. Um banquete e tanto, como vocês podem ver.
Este era só o começo. Pois a partir do segundo dia, o Fred Queiróz passou a me levar a diversos restaurantes participantes do festival, como o Beijupirá, um dos mais famosos de Porto de Galinhas, que tem molhos incríveis feitos de cajá, manga, caju, maracujá e tantas outras frutas tropicais, que eu misturava ao meu naco de beijupirá e que devorava com o maior prazer.
Entre todos os restaurantes que conheci nesta semana, chamaram atenção alguns, que ficarão na memória como momentos inesquecíveis.
No Anjo Solto, que fica numa galeria hoje considerada point dos modernos do Recife, um lugar meio underground que fez fama por servir comida boa, barata e de qualidade, comi o cardápio do chef Paulão – do restô Alvorada, de Araras (RJ) – que preparou um crepe de gorgonzola com uva verde de comer de joelhos, uma moqueca de cogumelos variados e um crepe de banana.
No Just Madá, senti-me em casa. Foi um dos restaurantes dos quais mais me identifiquei na cidade. Madá, que é arquiteta da sociedade descolada da cidade, disse que criou seu charmoso restaurante para funcionar como um “boas vindas” para seus clientes. A casa pegou de tal forma, que hoje já é considerada um dos destaques da gastronomia na cidade. No mezanino funciona o escritório de arquitetura dela, e na parte de baixo, são servidos seus estrugidos, que o Marcelo Katsuki – amigo querido que faz o blog “Comes e bebes” ( http://marcelokatsuki.folha.blog.uol.com.br/), que também foi convidado para o evento - me explicou ser um temperinho de azeite, cebola, alho e louro, que a simpática Madá usa para fritar seus camarões, carnes, legumes.
Ali foi identificação à primeira vista. Enquanto comia os pratos da Madá falava várias vezes no ouvido do Marcelo que ali seria meu point se morasse no Recife.
Fui também ao Nez, um dos mais chiques restôs da cidade, criado por Marcelo e Monica num casarão que já foi senzala no século XVII. Logo que cheguei Marcelo me recepcionou com um vinho da Nova Zelândia, que era pura rosa vermelha. Depois veio com um pitú enorme, que parecia uma lagosta, uma coisa linda. E ele contou a história da sua família, do seu irmão, o João Antonio Caldas Valença, preso na ditadura militar, do site da sua filha, a Camila Coutinho, ( http://www.garotasestupidas.com/ ), que hoje é a sensação de Recife, com mais de 20 mil acessos por dia.
Gostei tanto desta família e do restô, que acabei voltando outro dia para o jantar do Carlos Ribeiro, outra figura maravilhosa que me ajudou a desvendar o Recife, com seu bom humor.
O Carlos, aliás, lançou um livro neste festival... escrito em quatro mãos com o mestre Masayoshi, do restô Sushi Yoshi. Um livro que sai pela Publifolha e que traz receitas diversas da culinária japonesa. Uma delícia de livro, indispensável. Ali, no restô simpático do mestre Masayoshi teve o banquete da chef Talitha Ribeiro, que é do Sinhá (SP), uma das chefs mais divertidas, de riso solto, da temporada de comilança no Recife.
E eu volto a São Paulo com gostinho de quero mais, com muitos agradecimentos aos organizadores deste festival... principalmente ao Fred, Aninha e Luciano, que a todos me apresentavam, e que contaram tantas histórias pitorescas do Recife, uma capital que me conquistou com seu jeito personalíssimo e sua classe.